Os Benefícios do Jejum

O jejum é uma prática tão antiga quanto o ser humano, ou quem sabe mais antiga ainda. Porquê? Porque se temos origens comuns às dos animais podemos supor que o jejum é anterior à humanidade, uma vez que até os animais o fazem voluntariamente. Muitos animais selvagens (herbívoros excluídos) comem poucas vezes por semana. Alguns até podem comer só uma vez a cada três meses, como no caso das anacondas.

Mesmo dadas as enormes diferenças entre os vários tipos de animais – nomeadamente se são grandes ou pequenos predadores, se têm sangue quente ou sangue frio, entre muitas outras distinções – passar largos períodos de tempo sem comer é uma coisa muito comum no mundo animal. Quem já teve uma convivência prolongada com cães ou gatos com certeza já assistiu à sua recusa em se alimentar quando estão doentes, mesmo que tenham comida à disposição e que os donos insistam. Claro que os Labradores e os Golden retriever estão excluídos… quem os conhece sabe que comem sempre, sem excepção.

Mas afinal o que é o jejum? É simplesmente a abstenção da ingestão ou consumo de algo. O mais frequente é usar-se o termo para nos referirmos a comida. Mas podemos fazer jejum de álcool, de açúcar, de televisão, ou de qualquer outro hábito que acreditemos que esteja a ter um impacto negativo na nossa vida, mas que pela natureza da psique somos compelidos a repetir.

Dado que para muito boa gente comer é uma fonte de prazer e um momento de convívio, porque é que alguém se sujeitaria voluntariamente a pôr a comida de lado durante um período de tempo, por mais curto que seja? Bem, não foram só os místicos do passado que descobriram os benefícios do jejum – o que se revela na preconização do jejum em todas as grandes religiões mundiais. O mundo moderno, mais focado na aparência física e nos valores concretos de análises clínicas, está também a ganhar um novo interesse pelo assunto. Entre outras coisas, parece que o jejum, imaginem, faz com que as pessoas emagreçam. É tão simples que parece não ser verdade: não comer emagrece.

Mas não é assim tão linear… Também há testemunhos de pessoas com dificuldade em ganhar peso que depois de um ou vários períodos de jejum, começam a ganhar peso (ao voltarem a comer, claro). Parece que, no fundo, o jejum ajuda o corpo a se reequilibrar.

Ao benefício da perda de excesso de peso juntam-se ainda outras vantagens:

  • a diminuição da resistência à insulina,
  • a reversão da diabetes tipo II,
  • a resolução de problemas digestivos,
  • a supressão da constante vontade de comer,
  • a melhoria da memória e a reversão de problemas cognitivos,
  • o aumento da imunidade e a desinflamação geral, com repercussões positivas para as articulações,
  • melhoria da pele e do cabelo, (entre outras vantagens para a saúde).

Mas antes de continuar a louvar o jejum, e antes que o seu entusiasmo em “passar fome” tome proporções desmesuradas, há que ter em conta as devidas precauções.

Pessoas insulinodependentes, com tendência para a hipoglicémia, grávidas ou a amamentar, não devem jejuar sem supervisão de um profissional de saúde. Pessoas debilitadas ou a tomar medicamentos devem procurar aconselhamento médico antes de iniciar um jejum.

Vamos então definir melhor o jejum e as suas modalidades mais importantes.

Jejum a líquidos: Tecnicamente, este tipo de jejum não é um jejum, uma vez que estamos a ingerir nutrientes que vão ter que ser digeridos e transformados, ainda que a forma líquida faça com que a digestão seja muito menos exigente do ponto de vista do dispêndio de energia do organismo. É, no entanto, um tipo de jejum que também traz benefícios e uma excelente forma de começar a ter experiência de forma menos exigente. Dentro deste tipo de jejum incluem-se os “sumos verdes”, a “master cleanse” com sumo de limão, xarope de seiva de ácer e pimenta caiena, infusões variadas e até uma sopa leve ao final do dia. É preciso ter em conta que os picos de glicémia, provocados pela fruta, pelo xarope de ácer, ou por qualquer outra fonte de glicose, funcionam contra um dos propósitos chave do jejum: a estabilização da glicémia e o aumento da sensibilidade à insulina. Como tal, é preciso escolher bem o tipo de líquido que serve de suporte a este tipo de jejum.

Jejum Intermitente: O jejum pode ser “intermitente”, ou seja, cíclico. Isto é, escolhe-se um período de tempo nas 24 horas em que decidimos que vamos ingerir a nossa quota de alimentos e jejuamos durante o tempo remanescente, em que bebemos só água. Normalmente o período de jejum é de 14 a 18 horas, sobrando uma janela de 8 a 6 horas para comermos normalmente. Este tem sido o método preferido dos atletas e uma forma muito prática para quem quer ter os benefícios do jejum sem se tornar um recluso numa gruta nos Himalaias.

Jejum “Clássico”: É o jejum a água. Pode ir de um dia a um mês ou bem mais. É o segundo tipo de jejum mais exigente. É um tipo de prática que tem sido usado desde há muito tempo (há crónicas da Grécia antiga de curas de sono, em que os pacientes jejuavam e dormiam durante dias). Para praticar este tipo de jejum, convém ler bastante sobre o assunto ou ter alguém com experiência a, pelo menos, um telefonema de distância para que se possa tirar todas as dúvidas. Ainda assim, há que ir com calma. Muita coisa depende do ponto de partida, isto é, dos hábitos e do estado de saúde até então.

Jejum “a seco”: A modalidade mais difícil de jejum. Não deve ser praticado por pessoas inexperientes. Consiste em não ingerir nada, nem sequer água. Este tipo de jejum produz resultados incomparáveis, mas exige muita experiência prévia e auto-conhecimento. Para alguém sem prática, este tipo de jejum pode ser perigoso.

Agora que já sabe em traços gerais os tipos de jejum que pode (e não pode) praticar, deve escolher uma estratégia. Se não tem experiência prévia e quer começar a sentir os benefícios do jejum, comece por não tomar o pequeno-almoço… Ou se o pequeno-almoço é aquela refeição sem a qual “morre”, experimente não jantar. Uma pequena mudança deste género pode trazer impactos positivos bem visíveis num curto espaço de tempo. Uma vez que se habitue a “saltar” uma refeição, experimente ficar cada vez mais tempo apenas com água. Passar um dia inteiro sem activar os processos digestivos, não só traz leveza física como leveza mental. Para quem se sentir bem, experimente passar 72 horas sem alimentos sólidos. Se não ingerir açúcares nesse período, vai notar que o seu nível de vitalidade aumenta em vez de decrescer. Há uma razão científica para isso: o seu organismo muda de combustível – em vez de glicose, as células passam a queimar gordura, que é muitas vezes mais potente quando convertida para energia celular (ATP).

Vá descobrindo os benefícios do jejum através de uma prática progressiva e moderada, e quem sabe possa vir a reconhecer como uma coisa tão simples pode ter efeitos tão positivos.

Start typing and press Enter to search